AS FLORES VISTAS DE BAIXO (4)
Julgámo-nos em segurança nessa última noite, enquanto partilhávamos a terrina da sopa, onde os feijões que havíamos colhido na horta se despediam da terra. Julgámo-nos em segurança quando nos despedimos para dormir, Vale subiu até ao seu nicho dividido por um tapume de todos nós, eu trepei de um salto até à minha cama a cheirar à casca recém-cortada dos pinheiros e a mãe deu um beijo na testa de Jacinta, levada em braços pelo meu pai.
Mas enquanto as luzes se desligavam na nossa casa de madeira já eles cruzavam os campos de lírios e os ribeiros. Já mordiam buchas de pão, sem tirarem os olhos do caminho ou das tochas do guia que lhes assegurava não faltar muito.
Quando o dia nasceu, estavam tão perto da nossa casa que quase nos podiam avistar. E foi em murmúrios que os homens e as mulheres disseram às crianças e a si próprios por que razões vinham à nossa procura. Foi num sussurro que apertaram às mãos as correias que seguravam as mocas, cuidadosamente esculpidas para abrir um crânio com um golpe seco; ou afiaram as navalhas que antes tinham servido para cortar o caule de pé de milho ou uma fatia de enchido. Homens, mulheres e crianças de olhos claros que não reflectiam o dia, chegaram ao início da manhã. Tinham os pés sobre as flores.
O pai não os ouviu, com o barulho da serra, e quando os avistou, mal teve tempo de se defender. Caiu no chão com a sobrancelha rasgada e duas lanças no peito, cravadas em uníssono por dois rapazinhos gémeos de quem se esperavam grandes feitos.
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